CORONAVÍRUS: Uma resenha sobre a fala de Átila Iamarino no programa Roda Viva

Atualizado: Jul 14

Átila Iamarino, Biólogo e Divulgador Científico (canal Nerdologia), foi uma referência importante para o entendimento do cenário atual de Corona Vírus no Brasil. A partir de estudos assinados por aproximadamente 50 cientistas do Imperial College, Iamarino conseguiu nos alertar sobre o possível futuro de nosso país: 1,15 milhões de brasileiros mortos até agosto. A partir disso, o Brasil começou a tomar medidas, inclusive, precoces (mas que quanto antes iniciadas, melhor), como o isolamento horizontal para diminuir a transmissão do vírus. O cientista expõe, inclusive, que a previsão dos Estados Unidos (mesmo realizando a “auto-quarentena” como nós) é de cerca de 100 a 200 mil mortos. Em números, atualmente temos cerca de 37 mil mortos no mundo todo em 3 meses.


Estamos em isolamento horizontal e não há, segundo o Biólogo, outra saída viável nesse momento. E ele ainda diz que não sabemos o momento certo para sair dessa quarentena, pois não estamos realizando testes como deveríamos e os dados não são detalhados (temos casos que não são relatados, pois como temos uma menor disponibilidade de testes, eles acabam sendo destinados para aqueles pacientes mais graves ou que estão na zona de risco), fazendo com que não consigamos observar se, de fato, a curva está sendo achatada, ou seja, estamos no escuro sobre a realidade do país.


O mundo que conhecíamos não existe mais: estamos passando por um momento de transição e precisaremos (e estamos!) nos adaptar à tudo isso: famílias estão convivendo mais, escolas e universidades passaram a ser à distância, trabalho passou a ser em casa (e em muitos casos funciona muito bem) e pessoas estão procurando outras formas de renda para conseguir se manter sem sair de casa, sem se expor ao vírus.


Porém, mesmo tomando essas medidas preventivas, enfrentamos algumas questões no Brasil que tornam essa fase mais difícil. A primeira é a posição do Governo Federal que vai contra todas as autoridades mundiais que recomendam a paralisação temporária, demonstrando um forte sentimento de perda que a frente conservadora não gosta de ter: logo estão tentando fazer a população voltar às atividades normais, mas esquecem que não estamos mais nas mesmas condições de antes e que, possivelmente, elas nem voltarão mais. O isolamento vertical, proposto pelo Presidente do Brasil, não é um conceito formalizado, isto é, não houve pesquisa sobre ele, logo não deve ser uma opção nesse momento.

Nós não temos capacidade hospitalar para suportar a pandemia caso toda a população volte à vida “normal”, logo seria preciso priorizar a vida de determinada pessoa e “deixar” outra falecer, como está sendo feito na Itália. Mas, felizmente, os governadores estaduais seguem com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).


Outra questão, que, em minha opinião, pode ser a principal, é que há muito tempo a Ciência vem perdendo importância em nosso país: cada vez menos verba, menos atenção, negação dos dados e dos fatos. Por exemplo, cientistas estão alertando sobre o COVID-19 desde o surgimento da SARS, outro vírus da mesma família que foi muito presente em 2002: não faltaram alertas, faltaram ações. A China, mesmo sabendo da presença desse novo vírus continuou com o comércio de animais silvestres, continuou com a cultura de se alimentar dos mesmos, como por exemplo de morcegos (reservatório do vírus em questão).


Nesse momento é extremamente difícil fazer pesquisa no Brasil para buscar uma saída para o vírus, resultado de anos de negligência para a área. Por isso, dependemos de muitos países para conseguir ter algo por aqui: tanto agora, com os testes, quanto posteriormente com um possível medicamento ou vacina. Hoje boa parte da população consegue, finalmente, perceber que nossa única saída é a Ciência, que ela faz parte da infraestrutura do país (e do mundo!).


Nossa tendência é só ter cada vez mais epidemias, visto nossos hábitos como o comércio de animais silvestres e degradação da natureza. E o cientista afirma: não estamos no pior cenário! O COVID-19 é um vírus que transmite em 5 dias, porém, como nunca tínhamos tido algo parecido e o mesmo tem uma alta afinidade pelas vias aéreas superiores (sendo facilmente transmitida pela tosse, por exemplo), nossa situação é preocupante. Por exemplo, a Influenza H1N1, muito presente em 2009, era transmitida muito mais facilmente, mas como a maioria de nós já tínhamos tido uma gripe na vida, isto é, tivemos contato com outro vírus da família Influenza, foi mais fácil de lidar e de desenvolver a vacina (que já existia para outros tipos de vírus da gripe). Nossa pandemia atual mata de 10 a 20 vezes mais que a Influenza H1N1 e também hospitaliza mais (inclusive jovens!).


A China, local de origem do vírus, pesquisava sobre o mesmo há muito tempo, mas aparentemente ninguém estava preocupado com o fato. Porém, quando a epidemia foi iniciada por lá a resposta foi muito séria e rápida: a paralização foi tão eficaz que em 1 mês eles já tinham eliminado o vírus. O Comitê da OMS e o Comitê Científico afirma que a resposta da China foi a mais rígida, mais complexa e mais organizada até hoje, resultando em números baixíssimos: 80 mil casos e 3 mil mortos pela doença. Porém, o país prevê uma segunda onda viral que preocupa a população e ainda, relata casos de pacientes dados como curados e que 1 ou 2 semanas depois voltaram a apresentar sintomas.

Átila Iamarino afirma que o COVID-19 não é um vírus manipulado em laboratório, como muitos estão supondo. Nosso país apresenta temperaturas elevadas, e tudo aponta que essa temperatura diminui a transmissão do vírus. Nesse momento, podemos comparar nossa situação com a da Espanha: assim como esse país, nós tínhamos (e temos) mais de um centro epidêmico e a cada 3 dias o número de casos dobra, porém temos um diferencial: agimos cedo. Futuramente veremos se essa ação nos renderá bons frutos.


De forma extremamente clara, Átila Iamarino explica que para ser produzida a vacina leva tempo, diversos testes precisam ser realizados antes de imunizar tanta gente. Além disso, ele cita que pesquisas recentes que relatam o uso de remédios geralmente utilizados para o tratamento de Aids que mostrou uma melhora naqueles casos mais graves, encurtando a estadia dos pacientes na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Ele cita a cloroquina, medicamento que vem sido testado em diversos hospitais do país, mas ressalta que ainda não há nenhuma confirmação e nenhum estudo sobre o caso, mas o mesmo acredita que em semanas, provavelmente, teremos respostas. O caminho mais fácil e rápido agora é realmente testar drogas já existentes.


Precisamos ter noção das duas ferramentas que mais temos que explorar no momento, sendo a primeira delas a imprensa/mídia: mesmo com diversos ataques, inclusive vindos do governo, temos que ressaltar a importância da mídia para nosso entendimento do que está acontecendo no mundo todo. Segundo ele, temos que utilizar as redes sociais para discutir e as mídias para nos informar. A outra ferramenta é a ciência: apenas ela vai nos salvar desse momento, precisamos acreditar e contribuir. É necessário nesse momento dar capacidade para os laboratórios brasileiros produzirem os testes rápidos, e enquanto isso não é feito, importa-los.


O que podemos afirmar com certeza, segundo o pesquisador, é: enquanto não houver vacina as pessoas que se encontram em risco DEVEM permanecer em casa, menos expostas. Por fim, segundo Iamarino, se o comércio da região que você vive está parcialmente fechado, se não existe circulação de pessoas e se está acontecendo investimentos em saúde pública, seu município está no caminho certo.


A entrevista concedida ao programa Roda Viva foi uma das mais completas e confiáveis que tivemos em tempos: o autor se apresentava muito preparado para responder aos questionamentos e fazia uso de embasamento teórico, científico, para isso. Esse vídeo pode ser visto por toda a população brasileira, desde profissionais da saúde, cientistas, até outros profissionais, idosos, crianças e estudantes, já que o entrevistado usa uma linguagem muito acessível para fazer a divulgação científica.


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